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é o entorno que me entorna


O entorno que me arrodeia é patriarcal, misógino, homofóbico, reativo, pouco afeito a implicações e fácil de frustrar. A qualidade de vida acessível a mim, mulher de mais de quarenta anos, cuja branquitude não se afirma graças ao salvamento da periferia; logo periférica, solteira, mãe de duas crianças, financeiramente independente, identificada como intelectualizada pelo trabalho com que ganho a vida. Gosto de ocupar cadeira alta, assumo. Compareço com o desejo, insubmissa (alô ministra! somos muitas!) - a qualidade da minha vida é circunscrita, limitada, e tem fronteira definida pela cultura desse entorno hostil que me arrodeia, o entorno que me entorna diz “isso é pra você” ou “isso não é pra você”.


A quem interessar olhar o desenho pra onde meu dedo em riste aponta, vai ver que o dia começa com música animada, fumaças e cheiros, comida fresca e leve, casa arejada e clara, porque assumir o babado de se sustentar pessoa, sujeito desejante, de direitos, bancando viabilizar acesso ao que se quer, não ao que definiram pra mulher querer, porque já começa historicamente injusto, desleal e ingrato por estrutura. 


Só olhar. Não tem como errar, mulheres (as pretas mais que todas, as pretas trans mais ainda, são mais brabas porque as mais injustiçadas) carregam uma sobrecarga mental, psíquica, emocional e física infinitamente maior que outras pessoas. Mulheres pretas e periféricas, corpos vivendo o ciclo gravídico puerperal, as que cumprem função materna, ainda caminham com suas latas d’água na cabeça, cheias de missão atribuída pela cultura sem qualquer suporte para exercê-las. 


A demanda é que seja no amor, na raça e de graça. E a gente dizendo sins e nãos para sobreviver.


Se houver interesse de enxergar, vai ver que nem é gota inteira que falta pra transbordar a lata. Falta nada porque o excesso está posto enquanto modo de controle social e dos corpos. Por isso, e por isso só, peço a gentileza, em primeira pessoa, de não perguntar nada que você, sozinho, possa descobrir ou aprender. Nem indague ou questione algo que não vai pegar pra resolver, ou coloque dúvida, insegurança a alguém cujo esforço para estar afirmada e presente é indimensionável, um saber que só quem já perdeu pedaço de si prum outro que a gente nem escolheu, sabe.


E se você vir uma mulher “fora de si” não atrapalhe o caminho de volta dela pra ela mesma. Pela atenção obrigada.


Mulher bolada, agressiva, violenta, arbitrária, intransigente, debochada, egoísta, é a transbordada por esse excesso bizarro que há quem entenda como superioridade. O entorno me entorna quando subestima minha inteligência. E se não querem me ouvir, ouçam o homem branco que disse: 

Já lhe dei meu corpo, minha alegria

Já estanquei meu sangue quando fervia

Olha a voz que me resta

Olha a veia que salta

Olha a gota que falta

Pro desfecho da festa

Por favor

Deixe em paz meu coração

Que ele é um pote até aqui de mágoa

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a gota d'água

 

Depois não reclama, não diz que não avisei.


 
 
 

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