quem num larga delas, é nós
- Elis Barbosa
- 17 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de abr. de 2025

impressões desse livro de ser livre.
As Abandonadoras: histórias sobre maternidade, criação e culpa, é um livro escrito por uma mulher cujo tempo histórico de seu percurso, origem, cor e classe marcam seu lugar no mundo, de onde fala. Isso interessa como recomendação do laborioso Lacan aos psicanalistas, conexão à subjetividade de seu próprio tempo. Interessa enquanto pesquisadora e cientista social, como apontamento de novas curvas num caminho que seguimos para continuar a fazeção da história. Interessa enquanto discurso que representa determinado “tipo” de mulher com a qual há quem se identifique.
A autora desse livro, Begoña Gomez Urzaiz é jornalista, Catalã, professora universitária, cria dos anos 80, atualmente mãe, assume desde cedo ter sua atenção capturada pelo que ela mesma vai chamar de mães abandonadoras, a ponto de produzir um arquivo mental delas, a ponto da pergunta sair da cabeça e encontrar como saída possível um livro inteiro para (não) respondê-la: “que tipo de mãe abandona seu filho?”
Medo ou desejo, tanto faz quando ambos se apresentam no mal-estar da experiência materna vivida pelas mulheres, cada qual com o seu, mas nunca sem nenhum mal-estar.
No caso desse livro, Begoña vai selecionar as abandonadoras por mulheres que escolheram viver a maternidade suportável, mas se dedicaram a outras criações, para onde seu desejo apontava. Mulheres brancas que, mesmo não autorizadas, puderam viver outro desejo, diferente do atribuído às pessoas cujo corpo anatômico contém útero, como natural, o de maternar “alguém” que se gestou e pariu.
Porém repita-se tantas vezes quantas as que falarmos das maternidades possíveis, às mulheres negras viver a maternidade é um caso à parte que segue cindindo nossa chance, enquanto sociedade, de um processo de humanização mais profundo e verdadeiramente transforma-dor.
Desde as histéricas de Freud, - e esse é apenas um dos pontos de partida possíveis, o mais à mão no aqui e agora dos meus estudos - diz-se do adoecimento produzido pelas determinações socialmente construídas para as mulheres, pelos homens (tá rolando faz séculos), que, diga-se de passagem não são mulheres. Para atender demandas de um projeto de sociedade pensado para um cidadão comum, genérico, ordinário e anônimo poder transitar sem a implicação de um “eu” seu, cujo nome seja endereçamento para efeitos aos quais temos de estar todos submetidos, bem diferente da construção desse homem universal.
O homem universal, para ser promovido à status de responsabilidade é evocado como “sujeito homi”, porque ser sujeito não é algo que esteja no pacote de ser homem, necessariamente.
O momento histórico permite que mulheres vivas hoje, a despeito de sua rebeldia, falem das que, antes delas, já queriam outra vida pra si, independente dos outros, não solitária, empobrecida, isolada, sem afeto, beleza ou pertencimento, como é oferecido às dissidentes da maneira mais imperiosa e exemplar possível, mas uma vida cheia de sentido próprio. Sentido esse que pode estar no polo oposto à proposta da cultura para elas, principalmente no que diz respeito ao controle institucional dos corpos das mulheres e à maternidade. Daí a pergunta que a autora faz “que tipo de mãe abandona seu filho?”, desdobro em “que tipo de mulher abandona a maternidade?”
Sem resposta pronta a gente (se) joga no estudo dos casos com os recursos alcançados pelos saberes que dispomos e sustentamos acessar, cada qual de seu pedacinho de terra. “A pergunta roda, a cabeça agita” e a gente segue questionando.
O Grupo de Estudos - Corpos Gravídicos à Função Materna se encontra semanalmente, às segundas, 11h às 12:30 para compartilhar os saberes produzidos a partir das leituras propostas. Qualquer pessoa que se interesse pelo tema, independente de sua área de formação é bem-vinda. Querendo manda mensagem pra gente conversar.
Abraço,
elis/angela


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